EDUARDINA


Eduardina, filha única de Dona Nezinha e Seu Quincas, foi a deslumbrante fofoqueira nas terras encantadas e ensolaradas do Vale do Medo, encravado em Conceição do Coité, cidade baiana de claridade assombrada como as coisas que pulsam dentro de nós e não sabemos o porquê. Eduardina de tudo sabia, de tudo falava. Discutia sobre futebol, música, aritmética e até sobre os fenômenos meteorológicos. Empolgava-se relembrando as cenas das novelas globais e não globais, alimentava-se de sonhos rugindo dentro do seu eu interior com astúcia e malemolência. Se alguém queria saber dos preços atualizados das frutas, verduras, carnes e alimentos em geral, bastava falar com ela, que ainda dizia qual era o melhor vendedor, na feira dominical da cidade, para se comprar e não sair perdendo dinheiro. Linguaruda, esperta, espevitada, ia logo destrinchando a vida de todo mundo. Quem casou ou deixou de casar, quem eram as mães solteiras da cidade, quem comprava e não pagava, quem levava a vida em farras e tapeações, quem nas festas comia mais do que podia, quem estava namorando com quem, quem morreu, quem nasceu, quem passou pela cidade, quem ia e não ia a igreja. Seu alvo preferido eram as prostitutas, os bêbados, os loucos, os que não deram certo na vida. Eduardina possuía uma presença de espírito singular e até se orgulhava de ser uma fofoqueira com segundo grau completo, bem casada e mãe de um único filho, Tobias, que aos sete anos de idade já sabia ler com desenvoltura, menino tímido, de olhar espantado, raquítica criatura de inteligência incomum naquele mundo de sossego desassossegado. A vida seguia naquele deserto ensolarado, a caatinga, com o seu silêncio infinito, moldava a paisagem com a dureza dos corações desesperançados, trazia a magia das canções que ecoam pelo tempo com seus acordes doídos e movediços. Eduardina se achava aflita e espiritualizada, conhecia melhor aos outros do que a si mesma. Seu marido, Chico da Inocência, era um pacato sertanejo de ternura comovente. Silencioso, humilde, pouco entendia daquela mulher de fala corrida a atraente, amava-a e bastava. Até que um dia Chico chegou em casa e viu Eduardina chorando copiosamente, trêmula e de olhar quase morto. Viu um grande movimento dentro e fora de sua casa e logo um aperreio tomou conta de seu coração. Não precisou perguntar o que estava acontecendo, pois Eduardina foi logo lhe dizendo: Nosso filho morreu de repente!! Nosso rebento após um desmaio não mais acordou!! Chico, que passava as mãos pela cabeça, buscando explicações sem sentido para o fato, ajoelhou-se no chão e de lá só saiu quando o enterro seguiu para o cemitério. Eduardina que a tudo acompanhou, que tudo sentiu em sua alma com um peso que jamais conseguiria definir, a partir daquele instante foi imediatamente outra pessoa. Reflexiva e humilde, passou a fazer caridade e a construir em si mesma os fundamentos da compreensão e do perdão. Vivia para ajudar os outros, aconselhava quem dela precisasse, ouvia, com uma paciência angelical, a todos. Até seus últimos dias de vida, ainda com a companhia de Chico da Inocência, relembrava o que havia lhe acontecido e agradecia a Deus insistentemente pelo fato de tê-la trazido para o caminho da justiça e do amor, mesmo de forma tão doída e massacrante. Dizem que o sertão ganhou mais uma santa. E quem é que duvida disso?!


Aroldo Ferreira Leão
Petrolina, 27/10/2001