ARISTÓFANES


Dizem que Aristófanes já nasceu manco, com uma perna só, sorrindo e gesticulando para quem o olhava, procurando explicar a falta do membro andante. Desde criança pulava num pé só e não se incomodava de brincar com os amigos. Jogava bola, corria, nadava, dançava, tudo com a perna que ainda lhe sobrava, sem precisar de muletas ou qualquer coisa parecida. Aristófanes era o símbolo da felicidade, falava demais, inventava causos, abria e fechava os braços, sassaricava no chão, rodopiava, procurando dar a estória uma ênfase que julgava fundamental. O fato é que em Irecê, cidade desmilingüida como a dor das almas desertificadas do sertão, ele, como tantas outras figuras desse município baiano, distante uns quinhentos quilômetros de Salvador, já fazia parte do cenário e do anedotário local. Inventava piadas sobre si mesmo, ria com freqüência das piruetas que dava para poder acompanhar o vai e vem das pessoas nas ruas. Aristófanes ia pra missa, subia no altar, lia o evangelho, depois ficava na fila para comungar, sempre pulando com a perna que Deus lhe deu, como um autêntico saci sertanejo, rindo para a vida e com um olhar de desconfiança no ser humano que para ele era um poço de maldades e corrupções. Ari, como era mais conhecido, morreu atropelado em Salvador. Numa das ruas mais movimentadas do centro da cidade, um motorista, que não obedeceu o sinal vermelho, vinha em alta velocidade e não percebeu aquela franzina figura, de cara vermelha como o fruto do mandacaru, saltitando na faixa de pedestres, feliz por poder ser gente, entusiasmado com a possibilidade de vestir sua primeira calça-comprida comprada com o dinheiro de um ano de trabalho no armazém de Seu Manoelzinho. Ele, sempre de alma alegre como o canto da sabiá, de coração gentil como a sombra do juazeiro, de voz amiga como a paciência de um jumento, deitado e esquecido no quente asfalto parecia morrer por todos nós, mostrava nossa falta de carinho e respeito para com os outros. O motorista que o matou apressado fugiu, perdeu-se na paisagem conturbada e violenta da cidade grande. Muitos passaram pelo local e mesmo vendo-o ali estirado e morto não se comoviam em levá-lo para um local apropriado ou até mesmo pedir qualquer espécie de socorro em favor de alguém jogado às moscas. Por algum milagre, Onofre, que vendia em Salvador o feijão que colhia em Irecê, ia passando pelo sinal e olhando para a cena logo reconheceu o amigo. Colocou-o em seu carro, foi até o hospital para constatar realmente o falecimento e após absorver mais calmamente o impacto de tudo que havia presenciado, ligou para a mãe de Ari, que estava aflita em casa visto que o filho não tinha mandado notícias ainda, e explicou, triste, a morte do seu menino de uma perna só. A mãe, exterminada por dentro, não acreditava, não sabia o que dizer. Onofre falou que naquele mesmo dia estava viajando para Irecê com o corpo, que ela avisasse a todos na cidade. Irecê neste dia parou, impressionada com os mistérios da vida, alarmada com o acontecimento. Todos foram aguardar Aristófanes na porta de sua casa. Quando chegou houve choro e raro pesar entre a multidão de almas que queriam vê-lo pela última vez. No dia seguinte, foi enterrado no cemitério local numa grande comoção que trouxe para a cidade uma maior reflexão sobre os enlaces entre a vida e a morte. A população foi dormir pensando e repensando na vida, que precisamos urgentemente amar uns aos outros, que amanhã, mais cedo ou mais tarde, morreremos.

Aroldo Ferreira Leão
Petrolina, 27/10/2001