ZEZINHO DO PÉ DE ONÇA


Zezinho do Pé de Onça , viveu a vida inteira pensando que iria morrer no dia seguinte. Preocupado, ansioso, corroído pelas expectativas de seu velório póstumo, redobrava a intensidade de suas orações em centenas de pai-nossos e ave-marias sempre comovidos e extasiados. Quando fazia aniversário, enchia sua casa de convidados, dos mais pobres aos mais ricos, e entoava num lamento agoureiro de rara conduta poética: Se amanhã eu morrer saibam que amei todos vocês e procurei respirar os ares de surpresa e de encantos do Sertão, com o coração entregue à compreensão e à humildade!! Todos se comoviam com o tom pesaroso e sutil de suas palavras e se indagavam: Será que desta vez ele vai morrer mesmo?! Mas no dia seguinte ao de sua morte presumida, lá estava Zezinho, vivo e falador, argumentando sobre os acontecimentos nacionais e internacionais, flutuando nos dias ensolarados com uma habilidade de quem conhece o fascínio das cores sertanejas, o explendor da gente catingueira que aprendeu a conviver com dificuldades e explorações sempre com a alma em profundo estado de humanidade e silêncio. Zezinho foi envelhecendo e, aperriado por não morrer mais, viu-se eterno como a própria morte, criança brincando no vai-e-vem da vida, sombra de muitas sombras que o perseguiram o tempo inteiro em seu destino regado a medos e controvérsias. Zezinho do Pé de Onça, forasteiro dos túmulos, anjo das covas e das catacumbas que nunca chegou a penetrar, morreu baleado numa lenga-lenga na feira municipal. Ele, que não era de brigas nem de fuxicos, honesto ser humano de alma limpa, ia passando pela barraca de Seu Docinho quando, de repente, uma briga entre dois irmãos culminou com o disparo vindo de um revólver que o acertou em cheio no peito. Ainda pensou: Será que vou morrer?! Será que conhecerei o desconhecido, o lado oculto das coisas, a verdade maior de mim mesmo?! Será que serei meu próprio espírito?! O levaram para o hospital local, mas de nada adiantou. Zezinho morreu olhando a frieza das janelas da sala de cirurgia, conheceu, naquele mesmo instante, a efemeridade das coisas, a saudade das saudades que o tornaram cada vez mais vivo.


Aroldo Ferreira Leão
Petrolina/Juazeiro, 20/04/2002