ZÉ DE DONDONA


Zé de Dondona foi o maior peidador da região, seca e distante, de Cacimba Queimada, povoado da cidade de Pedro Alexandre, próximo a Cipó do Leite, no sertão baiano, e a Carira, no sertão sergipano. Peidava com uma facilidade impressionante e depois filosofava sobre o cheiro que emanava de suas entranhas com um ar de profundo conhecedor do assunto. Para cada peido, segundo ele, uma ocasião. Se estava entre amigos, melhor era o peido-cuscuz: seco e confiável, circulava o ambiente num tom amarelecido pelas nuances intestinais do próprio criador. Se porventura o cenário fosse de festa, indiscutivelmente o peido-folia seria o escolhido: esfuziante e com um som de metralhadora, adquiria uma conotação diabólica logo após sua saída das profundezas estomacais de Zé de Dondona deixando-o muitas vezes acuado diante de tamanha fedentina, pois na festa já sabiam ser ele o elo peidante da história. Se estivesse numa missa, bem adequado seria o peido-silencioso, prático e formal, exalava um cheiro que muitas vezes confortava espiritualmente suas vítimas, deixando-as envolvidas por um aroma desbotado e insosso, mas de forte apelo emocional. Se se encontrava em velório, o peido-defunto, com certeza, viria a ser o utilizado, morto e escarafunchado, decorava o espaço com labaredas visionárias que muito se aproximavam do sereno dançar das velas próximas do morto, ali dentro do caixão, quem sabe até sentindo a força viva de um peido domesticamente desenvolvido com a sutileza das bombas mais espalhafatosas. Zé de Dondona peidando desde a infância, com bastante naturalidade, tornou-se um mito em Pedro Alexandre. Virou juiz de futebol e para deleite da massa de torcedores que sempre o acompanhava só iniciava a partida com o peido-expectativa, que criativo e inovador, dependendo do espetáculo, saía mais alto ou mais baixo, caso a torcida estivesse fazendo menos ou mais barulho. Um médico da cidade espantado com seu grau elevado de peidaduras, consultou-o gratuitamente, analisou todas as suas veredas intestinais e chegou à conclusão que nada havia de errado com ele. De fato, segundo o médico, deveria ser algum fator sobrenatural, alguma mediunidade que o mesmo carregava em suas entranhas, misturada com características hereditárias elevadíssimas já que seu pai e seu avô foram inveterados peidadores locais, também de muito respeito. Zé morreu peidando, feliz por ter colocado no ar do sertão o cheiro da verdade das coisas e de nós mesmos, por ter dado a sua cidade, através de seus peidos, sempre bem empregados, uma fama que se espalhou para além das plagas catingueiras. Aliás, todos os que tiveram a sorte ou o azar de respirar o ar inspirador de suas vísceras, diziam, que de um jeito ou de outro, sua forma de peidar era, no mínimo, desafiadora. O sertão é o ser humano gritando dentro de si mesmo. Zé de Dondona, com seus peidadismos inigualáveis, apenas mostrou que somos, na essência, elementos mal cheirosos, seres que carregam em si os fortes impactos das mentiras e vaidades que a tudo contaminam e destroem com uma facilidade impressionante. Zé peidou pela verdade, mostrou que ainda estamos adormecidos nos aromas de um mundo que não se espiritualiza nunca, desfigurado e desiludido, como os peidos que de nós nunca saíram.

Aroldo Ferreira Leão