O ECO DO SILÊNCIO NA POESIA DE CARLOS KALLIL


Há na poesia de Kallil uma verdade e uma realidade que se infiltram em seus poemas de forma a construir no leitor um impacto silencioso de angústias. Em toda a sua obra os versos delineiam-se numa espontaneidade que traz à mente as circunstâncias da vida vistas por um poeta antenado, principalmente, e aí reside toda força de seus versos, nos seres e nas coisas que vivem à margem da sociedade. Seus poemas dançam em versos livres pelas inconseqüências dos nossos cotidianos, constroem em nós mesmos a interlocução das almas dispostas a se investigarem no caos das contingências que nos agrupam em torno dos instantes que muitas vezes nos deixam sozinhos e tristes. Analisando os textos deste seu primeiro livro sente-se a força e a beleza de inúmeros poemas, senão vejamos: Em Uma junina forma de esquecer o poema do 3º ao 5º verso diz: [ Bandeirolas são postas nas ruas como estrelas/ Parecendo lágrimas balançando/ Lágrimas de quem amou], o final deste poema é belíssimo em seus últimos seis versos que terminam com [Os festejos juninos passam e as cicatrizes ficam]; No Concerto sobre uma ponta de gilete vê-se a sutileza de versos como [Chaplin contou piadas/ Picasso pintou/ A amargura riu], a amargura riu de quem? De Chaplin porque fez rir nossas falsas esperanças, de Picasso porque pintou um quadro engraçado quem sabe de nossa sujeira espiritual, de nós mesmos porque somos crianças de corações levianos, de ninguém porque somos um amontoado de mistérios sem sentido?! E nesse conjunto de questionamentos sabemos que [o fotógrafo pediu sua máquina em namoro]; Em Um idiota qualquer e a deusa dos prazeres há no 5º verso um eco de beleza: [Ela dizia que Mozart e o esperma tinham algo parecidos] e em todo o poema tem-se a impressão de estarmos convivendo com a canção “Eduardo e Mônica” da Legião Urbana como atesta os versos [Éramos o que a sociedade chama de união improdutiva/ Mas inevitavelmente felizes]; No poema Muitas vezes não sou só flor, sou vento existe nele poesia da melhor qualidade, a própria forma como está escrito é interessante, tão interessante quanto os versos: [ Muitas vezes sou só dor/ Sou vento de flor/ Alvo do amor]; Em A morte da bailarina mais linda do circo tem-se que [ A atração principal era um leão que engolia professores de inglês], mas veja no poema quem era os pais dela e [Ela sempre bailarina] até que um dia [Estavam construindo um prédio/ E um tijolo caiu/ E a bailarina/ Linda menina/ Foi dançar no céu], uma triste realidade que chega a lembrar determinados poemas de Manuel Bandeira; Coisas deles contém versos maravilhosos: [Há pedaços de mim por todo o vento/ Semeando/ Germinando/ Almas à toa]; Em Vanessa queimada o poeta diz que [Existe limites para amar/ É que o tempo rouba-nos cada centímetro de esperança] e continua dizendo que [A solidão é um prato que comemos sem fome] e [Não sou para amar num instante]; O poema Onde não mora a igualdade é simplesmente belíssimo: [A alegria trabalha de gari/ E pega o ônibus que eu pego], [A miséria engraxa os sapatos dos homens na cidade/ E pega o ônibus que eu pego], [Eu convivo com os sapos/ Durmo com os grilos/ Como e bebo com as baratas/ Deus está aqui/ A morte está aqui/ A vida também]; Dos 15 aos 25 anos há a pérola: [O primeiro aniversário sem bolo ninguém esquece]; Poema de lembranças tristes e Carne por um dia são poemas perfeitos; Em A prostituta de marte o poeta fala: [E não me traga mais do que seu sorriso]; Conseqüência é um quarteto sublime e real; Em O filme mais bonito daquela tarde tem-se que [Fui ao cinema esquecer a vida]; O homem e o frio é de uma força lúdica e natural; Felicidade plutônica possui versos sensacionais, dentre os quais destaco: [Tive de superar todas as dores da vida/ E não precisei fugir de casa para saber que ali não era o meu lugar] e [Desejei a morte e só encontrei tristezas/ Fui quebrado em muitos pedaços/ Afastando-me cada vez mais das pessoas]; Em Casa Vazia o poeta [Queria que chovesse, o barulho da chuva me faz feliz] e proclama: [O vazio me pertence/ E a vida não me reserva muita coisa]; Dias de dor exala o verso: [Vi Deus chorar por mim e lágrimas petrificadas]; Psicologia é uma estória/história de um Chiquinho que habita este nosso tempo tão cheio das misérias espiritual e material; Em Apocalipse [Colocaram fim nas verdades mais suaves]; Na Tragédia vê-se não só Joana, mas também Vanessa(suavemente queimada) e a Bailarina que [Nem macarrão sabia cozinhar], visto que [Ela(s) se dizia(m) a própria esperança]; Cicatrizes revela que [O tempo corta as memórias/ Onde voltam as ilusões malditas]. Kallil tem potencial poético e isto é que é importante num poeta jovem que lança seu primeiro livro e procura, com humildade, uma afirmação de sua obra diante das contingências que o/a cercam. A responsabilidade de querer expor um trabalho faz do poeta um veículo sintonizado com sua próprias agonias, alegrias e pluralidades, um cidadão-comum, relembrando o poema de Virgílio Siqueira, de olhos abertos sempre buscando a essência dos instantes e de si mesmo, mero menino abandonado na imprudência dos destinos.

Aroldo Ferreira Leão
Petrolina, Janeiro de 1999