CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE,
UMA VISÃO SINGULAR DE NÓS MESMOS


O poeta Carlos Drummond de Andrade, nascido a 31 de outubro de 1902, no ano seguinte ao nascimento de outro grande poeta mineiro, Murilo Mendes, e no ano anterior ao nascimento de Pedro Nava, escritor mineiro autor de Beira-mar, estaria completando, neste ano de 2002, seu centenário de nascimento. Com uma obra imensa, intensa, densa, tanto em poesia como em prosa, Drummond eleva sua criação a patamares de altíssima qualidade, recria em si mesmo uma investigação sucinta sobre a realidade humana, dialoga com seus fantasmas num misto de pessimismo e solidão ante o cru cotidiano a que estamos envolvidos desde a concepção do mundo, retrata no tempo a ancestralidade viva de seus mortos com bastante precisão. São inúmeros os textos críticos sobre sua obra, diversas análises literárias foram criadas tentando explicar, explanar, esmiuçar a força de uma poesia sempre atenta aos segredos e degredos humanos. Nomes de peso como Antônio Cândido, Antônio Houass, José Guilherme Merquior, Afonso Romano de Sant’anna, Silviano Santiago e tantos outros, inclusive críticos estrangeiros, como o mexicano Rodolfo Mata e o búlgaro Stoyanov, Professor de Literatura e Cultura do Brasil na Universidade de Sófia, em seus textos críticos apenas confirmam a grandiosidade do vate itabirano que até o final da vida remoeu sua alma buscando explicações para o porquê de tudo, desconfiando, desconfiado, abrindo-se e fechando-se para a comunhão dos desesperos do mundo, expandindo-se em versos que ficarão, para sempre, gravados na memória da alma da língua portuguesa. Associada à sua extrema sensibilidade estava o seu estilo inconfundível de transmitir, naquilo que escrevia, o que sua alma, através de lembranças e contatos com o mundo assim como ele é, o impulsionava para a decodificação do que o bardo trazia em si de vida e de sonhos, de sutileza e amor. Espírito de grande ternura, Drummond contribuiu, decisivamente, para a construção de uma obra hoje analisada não só em Português, mas também em outros idiomas. Grande parte da obra do poeta já foi traduzida para o espanhol, inglês, francês, italiano, alemão, sueco, tcheco e outras línguas. A Editora Gallimard, francesa, lançou uma antologia trazendo o que o poeta tem de melhor em poesia. Tal fato só demonstra o prestígio que o poeta adquiriu ao longo dos anos sendo sempre cada vez mais comentado e discutido, tanto em universidades como em outros lugares que não fazem parte do ambiente acadêmico, dentro e fora do Brasil. É interessante frisar-se a importância de Drummond na Bulgária, onde já foram traduzidos mais de treze livros do poeta, revelando a magnitude da leitura de seus versos e o amor que o público deste país tem pelo mesmo. Há até uma tradução em latim feita por Silva Bélkior intitulada Carmina drummondiana, de 1982. Drummond também efetuou diversas traduções, a grande maioria do francês, entre as quais podemos citar Uma gota de veneno(Thérèse Desqueyroux),de François Mauriac, em 1943 e Artimanhas de Scapino(Les Fourberies de Scapin), de Molière, em 1962. Não se pode deixar de mencionar que, ainda em vida, Drummond gozou do privilégio, seguramente por várias décadas, de ser o poeta que maior influência exerceu na literatura brasileira de seu tempo. Escrevendo para jornais, publicando livros, conseguiu traduzir, em versos e em prosa, a sutileza dos momentos e movimentos dos elementos que nos compõem. Acredito que a obra drummondiana precisa ser melhor analisada, principalmente nos livros didáticos, que pouco exploram a real grandeza de versos, por exemplo, como “Nascer de Novo” do livro de 1980, A Paixão Medida:

“Nascer: findou o sono das entranhas.
Surge o concreto,
a dor de formas repartidas.
Tão doce era viver
sem alma, no regaço
do cofre maternal, sombrio e cálido.
Agora,
na revelação frontal do dia,
a consciência do limite,
o nervo exposto dos problemas.

Sondamos, inquirimos
sem resposta:
Nada se ajusta, deste lado,
à placidez do outro?
É tudo guerra, dúvida
no exílio?
O incerto e suas lajes
criptográficas?
Viver é torturar-se, consumir-se
à míngua de qualquer razão de vida?”

 

Perceba o leitor, no poema, a beleza e a maturidade de versos como [a dor de formas repartidas] ou [o nervo exposto dos problemas]. Sinta-se também a grandiosidade das perguntas no final da segunda estrofe, dentre as quais [Viver é torturar-se, consumir-se/ à míngua de qualquer razão de vida?]. Isto apenas demonstra que o poeta, ao longo de sua existência e da publicação de seus livros, nos trouxe um manancial fabuloso da melhor poesia, construiu um caminho por onde trafegamos comovidos, estarrecidos, dissolvidos, absorvidos por versos que nos contaminam com uma percepção clara e rara de ver as coisas. Os livros didáticos ficam presos, na maioria das vezes, num ciclo vicioso de só mostrar os poemas de Drummond de seus livros até A Rosa do Povo. Esses poemas são, com raríssimas exceções: “Poemas de Sete Faces”, “Infância”, “No Meio do Caminho”, “Cidadezinha Qualquer”, “Quadrilha”, que pertencem ao primeiro livro Alguma Poesia, de 1930; “Soneto da Perdida Esperança”, “Não se Mate”, que estão contidos em Brejo das Almas, de 1934; “Sentimento do Mundo”, “Confidência do Itabirano”, “Os Ombros Suportam o Mundo”, “Mãos Dadas”, “Mundo Grande”, que compõem o livro Sentimento do Mundo, de 1940; “O Boi”, “O Lutador”, “José”, que fazem parte do livro Poesias, de 1942, coletânea onde está incluído, além dos livros citados anteriormente, o livro José. Já os poemas de A Rosa do Povo, de 1945, que para muitos críticos é obra-chave dentro da criação drummondiana, revela poemas como “Procura da Poesia”, “A Flor e a Náusea”, “Nosso Tempo”. Notar então que o grande número de poemas que vão para os livros didáticos são poemas publicados entre 1930 e 1945. É de se estranhar tal fato visto que o poeta teve uma produção literária maravilhosa com livros sendo publicados de 1930 até 1985, entre poesias, contos, crônicas, literatura infantil, ensaios, traduções. Falta uma maior investigação, não só por parte dos livros didáticos, tão cheios de repetições de versos já consagrados, como também por parte da crítica literária dos poemas publicados por Drummond em seus livros principalmente a partir do ano de 1964 com Lição das Coisas. Em Amar Se Aprende Amando, de 1984, é impossível não se comover com a excelência dos versos do poema “O Amor Antigo”:

“O Amor antigo vive de si mesmo,
não de cultivo alheio ou de presença.
Nada exige nem pede. Nada espera,
mas do destino vão nega a sentença.

O amor antigo tem raízes fundas,
feitas de sofrimento e de beleza.
Por aquelas mergulha no infinito,
e por estas suplanta a natureza.

Se em toda parte o tempo desmorona
aquilo que foi grande e deslumbrante,
o antigo amor, porém, nunca fenece
e a cada dia surge mais amante.

Mais ardente, mas pobre de esperança.
Mais triste? Não. Ele venceu a dor,
e resplandece no seu canto obscuro,
tanto mais velho quanto mais amor.”

Um poema maravilhoso de um livro maravilhoso. Aliás, em Drummond isso é muito natural. Daí a necessidade de lermos sua obra, de a analisarmos com carinho, ano após ano, pois além de estarmos nos reconstruindo como gente, estamos nos espiritualizando mais, nos tornando seres melhores, mais atentos às coisas que nos envolvem e nos reciclam continuamente, acesos internamente e externamente. A obra drummondiana é um espelho de nós mesmos, grandiosa sabedoria espalhada em versos que encantam e nos remetem para um contato maior com nossas angústias, decepções, inquietações, verdades, conceitos que nos unem aos segredos que carregamos dentro de nossas almas cansadas. O poeta trafegou, durante seu período de vida neste nosso planeta, girante e errante, frustrante bola que rola no espaço, sem laço nem traço, com uma vivacidade incomum. Escreveu muito e com profundidade, clareou arestas, investigou fantasmas, multiplicou-se, inovou-se, tornou-se, em sua solidão de “urso polar”, uma figura nunca escura, um ser que em permanente burilação de suas mais íntimas sensações, abriu trilhas em nossos mundos sem trilhas. Drummond é uma voz em sintonia com as coisas, poeta, que em sua vivência e amadurecimento, apenas testemunhou os senões, as ranhuras, a falta de amor pelas quais o ser humano tem passado desde que é gente. A tentativa de mudar para melhor o indivíduo, de compreendê-lo em todas as suas nuances, de ouvi-lo, em seus confins e abismos, moldou o itabirano numa constante busca de si mesmo, numa intensa penetração na alma de tudo. Drummond nos sentiu e nos traduziu, reluziu em seus poemas com inteligência e simplicidade, conseguiu nos ampliar compreendendo, em sua intuição de grande poeta, nossa pequenez e nossa eterna maldade sem fim. Drummond nos traz paz, mas também nos remete aos vendavais do mundo, aos sinais de amor no imundo homem desestruturado interiormente, decadente indivíduo ferindo-se continuamente, distanciando-se da pureza sempre. O poeta escreveu seu último poema no dia 31 de janeiro de 1987, intitulado “Elegia a um tucano morto”. Tal poema faz parte de Farewell, último livro organizado por Drummond e que foi lançado pela Editora Record em 1996 no Centro Cultural Banco do Brasil, no Rio de Janeiro. Farewell recebeu, no mesmo ano, o Prêmio Jabuti. Sua morte aconteceu no dia 17 de agosto de 1987, doze dias após o falecimento de sua filha, Maria Julieta. Talvez um poema de Drummond que reflita esse momento está no livro A Falta que ama, publicado juntamente com Boitempo, em 1968, no poema “Qualquer Tempo”:

“Qualquer tempo é tempo.
A hora mesma da morte
É hora de nascer.

Nenhum tempo é tempo
Bastante para a ciência
De ver, rever.

Tempo, contratempo
Anulam-se, mas o sonho
Resta, de viver”

O poeta deixou as seguintes obras inéditas: “O Avesso das Coisas”(aforismos), “Moça deitada na grama”, “O amor natural”(poemas eróticos), “Viola de Bolso III”(Poesia Errante), todos hoje publicados pela Editora Record; “Arte em Exposição”, “Farewell”, além de crônicas, correspondências e um texto para um espetáculo musical, ainda sem título. Carlos Drummond de Andrade, pelo exemplo de integridade em vida, pela noção sublime de encarar os solavancos do mundo, nos trouxe, além de uma obra literária vasta, uma elucidação mais abrangente de nossas próprias atitudes, mostrou que podemos, numa conduta humilde e simples, construirmos um planeta mais terno, mais digno de vida. Drummond é infinito, grito de fraternidade sobre a nossa escuridão, visão ímpar de tudo que nos cerca.


Aroldo Ferreira Leão
Outubro de 2002