ENTREVISTA - O poeta de todos os instantes

O poeta potiguar radicado em Petrolina há vários anos Aroldo Ferreira Leão, está lançando seu quarto livro de poesias Presságios. Desta vez ele optou por uma editoração diferente e mais simples para reunir mais de cem poemas, tornando o trabalho num livro de bolso. A linha poética do novo livro, segundo o autor, concentra temas filosóficos, sociais e humanistas que estão espalhados em sua maioria em composições de sete versos (septeto). Nesta entrevista a Emanuel de Andrade do Gazzeta Regional, Aroldo fala sobre seu novo trabalho e adianta que a poesia está em qualquer lugar, desde que seja percebida com simplicidade. Além de Presságios ele já lançou A Trilogia da Dor (95), Carta a Tio João Cordeiro (96) e Alfabetizando a Alma (97). Segue a entrevista:

Gazzeta Regional- Qual a mensagem coletiva dos poemas editados em Presságios?

Aroldo Ferreira- Esse livro traz uma linha poética que se baseia na simplicidade da vida, das coisas e das pessoas, onde procuro penetrar a fundo na alma humana. São 102 poemas curtos com variações que me fizeram transformar o trabalho num livro de bolso. Os versos dispõem de uma série de variações e temas diferenciados e voltados para o filosófico e social de um modo geral. No fundo a minha intenção é questionar e ao mesmo tempo conseguir respostas dentro da própria poesia.

Gazzeta Regional- Você está lançando seu quarto livro e nunca se apegou a um estilo único, sempre procurou diversificar...

AF- De certa forma a poesia é uma linha de pensamento que dispõe de muitos recursos para ser trabalhada.
Em Presságios, por exemplo, a maioria dos poemas foi composta com sete versos, além de outros com oito. Fiz isso de propósito como também optei por fazer variações na linguagem. Trata-se de uma questão de pensamento que fui construindo ao passo que escrevia cada texto.

GR- Quanto tempo levou para o livro ficar pronto?

AF- Na verdade eu não demoro muito para concluir o projeto de um livro. Quando eu estou empenhado, por mais que me dedico e cobro qualidade de mim, fico ancioso para acabar logo. O esboço de um livro é que dá mais trabalho, assim mesmo eu procuro concluí-lo com rapidez, desde que os textos estejam satisfatórios com a minha exigência.

GR- Nos diversos segmentos da literatura, a poesia sempre ficou em último lugar com relação ao processo de leitura por parte do público. O que você acha disso e o que ela representa para você?

AF- É lamentável que seja assim, mas entendo que tudo é questão de cultura e costumes. A poesia está dentro de mim por uma necessidade de expressão, pois eu não consigo sair dela e nem ela de mim. Poesia é algo que está no meu sangue, no sentimento, na cabeça. Com a poesia eu quero tudo, me realizo perfeitamente, seja dormindo, comendo, sonhando, dançando... ela virá. O dom de me fazer pensar sobre qualquer coisa da vida também está na poesia. Não consigo contemplar nada se não for poeticamente; posso adiantar que me envolvo com o conto e também estou me arriscando no romance.

GR- Como você pode se envolver com tanta coisa ao mesmo tempo, inclusive a música, campo que você vem explorando?

AF- É verdade. Não sei mesmo de onde vem essa força e paixão pela literatura, acho que são características da dor e da angústia juntas e da alegria e felicidade de mãos dadas. São coisas que brotam naturalmente dentro mim. Quanto à música eu venho estudando e compondo sozinho de maneira estreante. É outra área que me dá muita satisfação.

GR- Dos livros que você já lançou qual o preferido, ou seja, aquele que prende mais a sua atenção!

AF- Fica difícil responder porque tenho um carinho especial por todos, embora no momento eu esteja dedicado ao Presságios. Escrevi todos eles com o mesmo sentimento de construir um trabalho que me dê sempre um eterno prazer. Todos eles vieram das entranhas do que eu chamo de mergulho poético.

GR- Finalmente, quem são seus autores prediletos na poesia brasileira?

AF- Olha, a pergunta me deixa quase sem respostas porque não queria cometer o erro de esquecer um nome. Poesia eu leio de tudo e muitas vezes 3 a 4 livros simultaneamente.
Garanto que consigo absorver a mensagem. Mas eu arrisco citar que Manoel de Barros tem um trabalho que vem me prendendo assim como a poesia de João Cabral me encanta. Quando eu leio qualquer texto de Clarice Lispector fico deslumbrado. Ela é fantástica e tudo que fez tem poesia.

Aroldo Ferreira Leão: "Não consigo contemplar nada se não for poeticamente"

 

Jornal Gazzeta Regional, Dezembro de 1997