Entrevista para a Propaganda e Sonorização Mário Filho

Com a aproximação do dia em que o poeta Aroldo Ferreira Leão atingirá a marca de 50 livros publicados a Sonorização & Propaganda Mário Filho o entrevista e dialoga com sua tensão criativa?!


01) Aroldo Ferreira Leão, como é possível se chegar a publicação de 45 livros e mais 16 antologias, residindo num lugar, ou numa região, onde os meios de divulgação e edição de livros são tão precários?!

AFL: O sonho e a perseverança têm me deixado aceso interiormente, espero que eternamente. Ano a ano, desde 1995, com o lançamento do meu 1º livro, A Trilogia da Dor, venho criando e recriando em mim mesmo o hálito da poesia que me domina e me determina no mundo. Uma necessidade íntima e profunda de fazer poesia induziu-me a ser e a estar em tudo, a multiplicar-me além de minhas forças, a investigar-me sempre. Daí essa quantidade de livros, que irá aumentar, com certeza, se a morte não me abraçar com seu silêncio cansado e doído. Mas enquanto isso não acontece, faço versos, componho músicas, lanço livros e CD’s e me perpetuo na essência da criação com a sensação que devo explorar-me cada vez mais.


02) Escreves contos, crônicas, romances, ensaios, crítica literária. Ensinas matemática e física. Atuas como Auditor Fiscal. Tens mais de 600 canções compostas, vives uma vida de criação intensa. Não te cansas com tudo isso?!

AFL: Não. É impossível haver cansaço, ou a sombra dele, naquilo que fazemos por amor. Com relação ao ato criativo, mexo e remexo com o mesmo há quase 20 anos. Desde os 15 anos de idade buscava explicações para o porquê de tudo e já me expressava em versos ou canções. Com o tempo, mais amadurecido e achacoalhado pela vida e pelo mundo, sinto que meus ideais poéticos ainda continuam sendo os mesmos: Criar uma obra poética que esteja além de tudo, até de mim mesmo.


03) Quem é Aroldo Ferreira Leão?!

AFL: Um ser que vê poesia em tudo, que respira o ato criativo a todo instante, com zelo e dedicação. Veja bem, é bom não se confundir pressa com o átimo criativo, com a vontade de expandir aquilo que te domina e torna quem és. É preciso ter cuidado com a poesia, ela é a vida da vida. Merece respeito e comunhão, um saber esperar que pode demorar uma vida inteira.


04) A tua home-page: www.aroldoferreiraleao.com.br está no ar desde 2001 e, agora, em 2003, preparas o lançamento da nova versão da mesma. Deu para colocar tudo na home?!

AFL: Claro. A idéia sempre foi essa. Todos os livros estão lá e ainda há uma janela com poemas selecionados e também uma outra com crônicas e contos selecionados. A biografia e a bibliografia estão atualizadíssimas, os comentários e fortuna crítica foram ampliados, meus ensaios e minha crítica literária foram introduzidos. Ampliaram-se as reportagens e as entrevistas. Tudo, enfim, foi colocado de forma a oferecer ao internauta uma visão mais abrangente de meu trabalho criativo tanto na poesia quanto na música.


05) E as canções. Gravaste o CD Sacolejos e Manejos, com 14 forrós de tua própria autoria, e preparas, ainda para este ano, o lançamento de A Poesia das Coisas e O Desassossego da Idéia?!

AFL: Veja bem, A Poesia das Coisas é um CD com músicas no estilo MPB e já está quase pronto. O Desassossego da Idéia é um CD que me traz recitando poemas que considero interessantes em minha obra. Neste CD também canto determinadas canções que, julgo eu, se encaixam no perfil de um CD recitado. Todas as canções são de minha autoria.


06) Até o final deste ano completas a publicação de mais de 50 livros. Vai haver algum evento para marcar esse acontecimento?!

AFL: Com certeza. A idéia é no meio do mês de dezembro realizar um show onde eu possa apresentar todos os livros publicados e mais as participações em antologias. Os CD’s também serão divulgados e, é claro, no show irei cantar minhas canções desde o forró até a MPB tradicional, mostrando, espero eu, uma ecleticidade que me traduza em minha própria obra.


07) Como é que um poeta consegue escrever dez Coroas?!

AFL: Escrevendo. Sonhando, penetrando fundo no âmago da criação e do silêncio das coisas. A Coroa é uma criação da Idade Média que, ainda hoje, é praticada por alguns poetas no Brasil, principalmente no Estado de Pernambuco. Joseph Bandeira e Dr. Lúcio Emanuel, aqui em Juazeiro, lançaram, cada qual um livro, com uma Coroa, que é a junção de 15 sonetos onde o soneto seguinte possui, no 1º verso, o último verso do soneto anterior. O 15º soneto é a reunião dos últimos versos dos sonetos anteriores. Uma beleza!! Meu 19º livro, Foi Cancão quem me Disse, e meu 45º livro, A Canção de Maria Doida, são compostos por Coroas, decassilábicas ou não.


08) Ouvimos dizer que possuis mais de 1000 haicais criados. É inacreditável isso. Há algum autor brasileiro, ou até mesmo japonês, que tenha atingido esse número de haicais?!

AFL: Acredito que não. Dentro dos 45 livros publicados há 5, compostos com 75 haicais cada um. São eles: O Silêncio do Nada, O Vício de Ser Quem Se É, O Tato das Mãos do Tempo, Impasses da Razão e Verdades que Encantam. Todos os livros foram publicados em 2001.

09) O crítico literário e atual Secretário Administrativo da U.B.E. de São Paulo, Caio Porfírio Carneiro, diz que O Brasil precisa te conhecer?!

AFL: O Brasil precisa conhecer tanta gente. Entre artistas e mutilados a lista é imensa. Os repentistas e cordelistas. Os poetas quase todos, mesmo os que habitam as capitais. Os compositores, cantores e músicos em geral que tenham um trabalho sério e amadurecido. Os artistas plásticos, pintores e tantos outros que se diluem na percepção aguda das cores e formas que nos envolvem. O Brasil precisa conhecer seus presídios sujos e habitados por pessoas que se amontoam umas sobre as outras. Os hospitais públicos e escolas públicas sofrem com a falta de apoio sendo vítimas de um descaso aberrante e desigual. As estradas estão esburacadas, os famintos são muitos, a pobreza é grande. Realmente o Brasil precisa se conhecer. Isso acontecendo teríamos um país melhor sem tantas desigualdades e dores.


10) Poeta, um dia tudo isso pode acabar?!

AFL: Claro que sim. Mas insistirei até o fim para que não. Enquanto habitar este planeta, de seres levianos e inumanos, procurarei fazer poesia. Se em maior ou em menor quantidade, só o futuro dirá. Apenas, uma voz íntima me diz isso, não deixarei de criar versos. Um mundo sem poesia é um mundo sem alma, canção soterrada pela solidão da morte de tudo. O poeta viverá até o fim, havendo fim. Se não, melhor ainda, me alargarei ainda mais criando versos e canções.

Juazeiro/BA, Junho de 2003