O ELO DRUMMONDIANO DOS SENTIDOS

(I)


Sim, Carlos, a vida continua
Injusta como sempre,
Os homens apressados,
Os carros buzinando sem parar,
A morte do espírito
Acontecendo todos os dias.
Há uma angústia nos corações,
Um medo de acreditarmos
Uns nos outros,
Uma necessidade
De termos bens materiais em excesso,
Uma dor que nos explora
E nos piora continuamente.

Sim, Carlos, o amor desapareceu,
Ninguém compreende ninguém,
Homens se matam fora
E dentro de suas casas,
Meninos passam fome
Pelas ruas deste teu país
De saudade humilde e doída,
Canção de nossa ancestralidade
Nos unindo ao que somos
E ao que deixamos de ser,
Acasos roídos pela solidão
Dos espaços desencontrados.

(II)


O poema exige paciência,
Solidão, cadência.
Inútil correrias,
Vazias atitudes que não levam a nada,
Conceitos tolos do que é , foi ou será.
Interpretações visionárias
Do teu ou de outros destinos,
Sentimentos roídos por fora
E por dentro de tua alma.

O poema é você.
Desnudo, limpo, correto.
Só o sonho pode inundar-te
Com o que de melhor há em ti,
Espantar velhos fantasmas,
Cercar-te da paz mais angelical.
Vai, arrisca-te, torna-te
O que pretendes ser!
Vai, a morte virá, cedo ou tarde!

O poema é criança que se embala
Com o máximo de carinho,
Sem ressentimentos ou convicções
Cansadas da maldade alheia.
Toca na tua face
E sente a passagem dos anos,
A angústia das rugas
Que te tornaram quem és,
A força do mistério de tudo.

(III)


Só a poesia pode libertar,
Te encontrar sereno
Como o olhar de uma mãe
Lançado ao filho
Num momento de silêncio
E verdade.
Só a poesia pode tudo.
Renascer, crescer, evaporar,
Condensar, infiltrar, soltar
As amarras tensas
De tua alma.
Só a poesia ressuscita.


(IV)


Minha liberdade
Só reina na solidão.
É preciso lapidar-se
Sem ferir, sem magoar.
Enxergar além
Sem prejudicar aos outros,
Sem monopolizar
Conceitos,
Sem deteriorar
Vidas e esperanças.
É necessário ter fé
Nos homens,
Compartilhar dos sonhos de todos,
Construir elos
Que nos espalhem
Vida afora,
Colher, com perseverança,
O que plantamos
No terreno espiritual
De nossos destinos.
Minha liberdade, talvez,
Só inicie com a morte.

(V)


Só os anjos
Acariciam
A poesia
Sem mãos
Nem toques.
Só os anjos
Compreendem
Sem impérios
Nem forças.
Só os anjos
Absorvem o amor
Como se deve,
Flutuam na verdade
Sem deslizes.

 

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