"A Janela do Sótão"

Na coletânea de sonetos que compõem "A Janela do Sótão", novo livro de Aroldo Ferreira Leão, o autor revela maior intimidade com a difícil relação do ser humano frente aos conflitos universais. Afastando-se da temática conceitual e dos tons proverbiais, ele constrói sua poeticidade sem elementos proféticos e sem o didatismo das racionalizações, por vezes geradas no inconsciente. Livra-se também do desencanto lamuriento, que é tônica de certos versejadores pessimistas.
"A Janela do Sótão", ainda que não totalmente liberto das peias impostas pela metrificação, é um passo largo para a livre expressão poética, do cotidiano ao imaginário. Importa enfatizar que Aroldo Ferreira Leão é um fenômeno (necessário adjetivar, porque tudo o que acontece é fenômeno...) raro. O delírio obsessivo em poetizar é,com permissão da famosa "licença", um saudável estado patológico. Sua poesia (que nasce adulta) emerge aos borbotões, em busca de espaço, forçando as prisões vocabulares, elaborando simbolismos enigmáticos, questionamentos místicos, indagações existenciais, num catadupejar impressionante. Prontas, ou quase, para o leitor.
Criador e criatura têm a mesma compulsória urgência. "Estou na impaciência que desconhece limites", confessa o próprio Aroldo. Como exigir, de um poeta jovem, a projeção de experiências vivenciais profundas, de conotações reflexivas e conceituais? Não é o caso. Entretanto ele reflete muitos momentos de notável iluminação, domina a mecânica do verso, escreve com desenvoltura e cultiva a economia verbal. sobretudo é dotado de invejável criatividade. Dispondo de tal equipamento, a sua criação, forjada na bigorna da ebriez artística, representa a expressão de um talento natural que vai se acercando cada vez mais do arcabouço técnico, indispensável para a completa realização poética.

José Américo de Lima
Jornal Folha Verde, 20/01 a 20 de fevereiro/99