No lado imponderado das coisas

Tão intrigante e profundo quanto os cosmos que rodeiam o homem, somente o mundo de sentimentalidades que cada um carrega dentre de si. Esse lado imponderado das coisas que muitos procuram esconder é o mundo que serve de inspiração para a poesia de Aroldo Ferreira Leão. Um professor de matemática, formado em Engenharia Elétrica e que atualmente trabalha como auditor fiscal da Receita Federal e é presidente da União Brasileira de Escritores - Região Petrolina.
Sua produção teve início em 1990 quando ganhou um concurso literário pela Fundação José Augusto ainda quando morava no Rio Grande do Norte, sua terra natal. Em 1995, publicou seu primeiro livro. A Trilogia da Dor, onde "derrama com liberdade e poesias suas dores poético-existenciais". Daquele tempo pra cá, já são 43 livros, sendo O Laço do Que Não Sei, o mais recente.
Além dos livros, o poeta contabiliza textos para teatro e uma série de contos, romances, crônicas e ensaios inéditos. Todos inspirados pelo vasto mundo interior da alma humana, a obstinação em dissecar cada uma de suas expressões.
"Procuro pacificar as angústias das pessoas, traduzir suas expectativas", diz.

Música

Não somente poeta, Aroldo também é compositor. Há bem pouco tempo lançou o CD Sacolejos e Manejos, onde pelos acordes característicos do ritmo popularizado na voz de Luiz Gonzaga, misturam poesia, sanfona, triângulo e zabumba ao verdadeiro cancioneiro nordestino. Para o próximo ano, a promessa é de um novo trabalho musical, dessa vez, inspirado na Música Popular Brasileira (MPB).
Entretanto, é como escritor que Aroldo toma com mais propriedade as dores humanas. Em 1999 recebeu mensão honrosa da Academia de Letras de Paranapuã - RJ. Ainda em 99 com o conto O Quarto de Teobaldo, ficou em 3º lugar no concurso da AGE Edições.
Como quem escreve abrindo caminhos dentro de si mesmo, Aroldo visita e revisita a natureza humana, com suas angústias e correrias, tédios e sonolências, alegrias e tristezas. É como se apresenta num de seus livros, sua poesia talvez seja um grito de seu espírito buscando vôos e vontades que possam encorajá-lo a sonhar cada vez mais, a abrir novos espaços em seu ser, a explorar-se com a sede dos homens dispostos a se expandirem eternamente.
Ainda assim, uma das maiores virtudes de Aroldo é manter-se produtivo numa região que como ele define não é apenas árida na vegetação. Prova disso foi o espaço que conseguiu no site da uol, onde seu conto João da Silva fará parte do livro a ser lançado no próximo ano, Verdade Sertaneja. O coordenador do site que abre espaço para a literatura é o escritor João Silvério Trevisan.
A Internet, aliás, é uma das novas ferramentas utilizadas pelo escritor. "Quando sem o recurso que ela nos oferece, poderia entrar em contato com Ferreira Gular e Adélia Prado, por exemplo?", disse. Uma outra faceta do poeta é ter enveredado pelo caminho da crítica literária. Um campo ainda mais escasso entre os autores da região, e que poucos têm buscado. Uma demonstração de amadurecimento da alma de escritor inquieto, de cuja inquietação provêm sua inspiração.

"Minha dor é seca,
Progride nessas entranhas
Que morrem em mim".

"Quem me compreende
Sente que sou só
Árvore sem frutos".

"A casa repleta
De pessoas não vÍ o pássaro
Na gaiola, preso".

"Quem sabe de si?!
Ninguém. Mentiras estão
Em nós, caracterizam-nos".

"As folhas do tempo
Se balançam nessas árvores
Da dor de cada um"

"Não somos o que
Pensamos ser,
Somos o que desune o ser".

(haicais do livro O Silêncio do Nada de autoria de Aroldo Ferreira Leão)

Tribuna do Norte, 08 a 14 de outubro/2002